O Romancista
Cismei que eu seria romancista. Ávido leitor que sou, somada a minha habilidade de ser medianamente bom com as palavras, decretei: serei romancista. Me incomoda um pouco o fato de o idioma português, no contexto da literatura, usar a palavra romance tanto para o gênero literário como para a categoria literária. Quando digo em uma roda de conversa que um dos meus grandes objetivos de vida é publicar um romance, me olham com uma expressão de coitado. Acredito que associam a minha frustrada vida amorosa no mundo real com uma tentativa de possível sucesso no romance fictício. Aí eu acabo explicando que me referia ao gênero literário, não à categoria. Pensando bem, se eu transcrever meus fracassos amorosos aplicando os clichês, talvez eu seja um excelente escritor de romances, nesse caso, de fato a categoria.
Divaguei, o ponto aqui não é minha vida amorosa. É a vida profissional. Se bem que não sou profissional, já que não vivo do que escrevo. Detalhe, detalhe. Também não escrevo o que vivo. Ou talvez eu escreva o que vivo de maneira subconsciente. Enquanto escrevo esta crônica, me parece que descubro o porquê de não conseguir escrever um romance policial. Não sou policial. Não sou vilão. Ainda não fui vítima. E se eu escrevesse sobre política? Não sou candidato, nunca fui eleito, mas sou cidadão. Tenho direito a voto. Se eu soubesse votar talvez o país estivesse em melhor situação. É difícil escolher, considerando que todas as opções são ruins.
Divaguei novamente. Decidido que estava de me tornar um romancista, revirei na cabeça a diversidade de histórias que eu poderia escrever. Mas não me bastava só escrever, eu queria inovar. Ser reconhecido como o novo Machado. Quem sabe o Machadinha? Cutelo de Assis, talvez.
Passo horas discutindo comigo mesmo. Escrevendo, apagando. Criando personagens desprezíveis. Não porque sejam pessoas ruins, mas porque são mal feitos.
Cá estou há cinquenta anos escrevendo o meu romance.
Talvez seja só meu epitáfio:
Fantasiou a vida que queria viver em vez de viver, simplesmente.
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