Compreensão
Hoje, no deserto de minha solidão resignada, compreendo, enfim, aqueles que se dizem incapazes de amar. Não é porque perderam os sentidos, os sentimentos. Não. Pelo contrário: eles sentem, e sentem muito. Sentem tanto que, se fosse possível, materializariam o amor em pessoa, só com a força do pensar, mas tal qual o músculo que, se não exercitado, atrofia, tropeçam no próprio querer.
Estão há tanto tempo só, que vivem de rompantes sazonais, como um oásis temporário, que revive tudo e é bom, mas logo acaba. Perderam o equilíbrio, ou amam tudo de uma vez ou não amam nada. Bastam-se em si mesmos, não porque se tornaram seres maduros e evoluídos, conscientes de que validações externas nada são além de complementos do seu ser. Não. Bastam-se porque o enfado de ser inteiro, e ainda assim se dividir, é grande.
Tornaram-se pragmáticos. Desejam possuir e ser possuídos, mas que seja como o fogo que consome a palha: avassalador. Superficial. Não sabem mais o processo de se criar a brasa. Saciam a carne, pois a alma jaz sem fome.
São prisioneiros da desesperança.
Acostumaram-se com as chuvas. Não sabem mais o que fazer quando o sol se abrir.
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